Prêmio dado ao escritor Chico Buarque tem dimensão política, mas vai muito além dela

Página infeliz da nossa história (“Vai Passar”), os debates culturais que travamos em nossas redes sociais têm, de cultural, bem pouco. Soa natural falar do maior prêmio literário da língua dado a Chico Buarque pelo lado político.
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Tremenda derrota simbólica para tanta mentira, tanta força bruta (“Cálice”), isto é, o reacionarismo político, cultural e civilizacional que chegou ao poder no Brasil? É evidente que sim —o que, aliás, estava com certeza nos planos do júri.

MARXISMO CULTURAL – Exemplo do “marxismo cultural” que domina os meios artísticos, sem o qual esse representante decadente da esquerda caviar já teria caído no esquecimento que merece, levando com ele o disco do Pixinguinha (“Trocando em Miúdos”)? Nesse caso, só rindo.

É claro que o Camões de Chico não poderia deixar de ser politicamente controverso num momento de polarização em que, além do mais, os óculos de grau errado do bolsonarismo só permitem enxergar no artista carioca o inimigo a ser destruído.

Mesmo assim, vou defender a ideia impopular de que a dimensão política de Chico, embora importante, é secundária. Reconhecer isso não significa subestimar a história de quem foi o maior nome da “canção de protesto” e um defensor inflexível de Lula e do PT —mesmo quando ficou patente o envolvimento de ambos em tenebrosas transações (“Vai Passar”).

OBRA DA INDIGNAÇÃO – Também não deve ser entendido como uma tentativa de, por meio de certo esteticismo bocó, atenuar a virulência de uma obra que arde de indignação com nossa realidade social perversa.

Ocorre que, como todo grande artista de esquerda ou de direita, Chico tem uma obra maior que a soma de suas convicções de cidadão. Longe de atenuar qualquer coisa, isso a torna mais poderosa.

Um aspecto curioso da arte, qualquer arte, é que aquilo que faz dela uma aparente frescura a ser contingenciada nas lides pragmáticas do presente é a mesma coisa que a leva a vencer de goleada no final.

COERÊNCIA – A obra fala —canta, no caso— por si. E tudo indica que continuará a fazer isso quando o Rio for alguma cidade submersa (“Futuros Amantes”) e só restarem, da guerra política de hoje, letras nos livros de história.

Essa transcendência é cósmica. Está enraizada numa intimidade excepcional do artista com a língua que o pariu e que ele reconfigura e atualiza, impregnando a cultura, moldando a memória afetiva de gerações. “Luz, quero luz!/ Sei que além das cortinas/ São palcos azuis/ E infinitas cortinas/ Com palcos atrás” (“Vida”).

É isso que garante a derrota esmagadora de qualquer militante que, por antipatia político-partidária, entenda de se voltar contra algo tão maior que ele. Melhor faria se enfrentasse “os batalhões, os alemães e seus canhões” (“João e Maria”), armado apenas de um bodoque da Taurus.

“NÃO SONHO MAIS” – Isso posto, que canções políticas fortes tem o cara! “Vinha nego humilhado/ Vinha morto-vivo/ Vinha flagelado/ De tudo que é lado/ Vinha um bom motivo/ Pra te esfolar.”

Lançada por Elba Ramalho em 1979 —primeiro ano do governo do general Figueiredo, reta final da ditadura–, “Não Sonho Mais” ocupa uma posição especial na obra de Chico.

Mal disfarçada de desabafo passional e tornada palatável pelo humor, a mais violenta de suas canções contra a opressão parece talhada para a selvageria da retórica política atual: “Te rasgamo a carcaça/ Descemo a ripa/ Viramo as tripa/ Comemo os ovo/ Ai, aquele povo/ Pôs-se a cantar”.
Sérgio Rodrigues/ Folha


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Questão Brasil - 09/04/2019