Discreto e não fala bobagens | Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, é a maior revelação do governo Bolsonaro

Integrante de um governo ainda sem avanços em temas como o combate ao desemprego ou a melhoria de indicadores na Educação, o ministro Tarcísio de Freitas tem sido elogiado pelo presidente Jair Bolsonaro com uma frequência pouco vista na Esplanada dos Ministérios. No comando da área de Infraestrutura, ele passou a reunir em sua pasta tudo aquilo que Bolsonaro gostaria de encontrar nas outras: entregas de promessas, resultados para festejar nas redes sociais e batidas de martelos em leilões na Bolsa de Valores. Só nos 100 primeiros dias de governo, foram 23 leilões de ativos – incluindo aeroportos, terminais portuários e a ferrovia Norte-Sul –, com previsão de gerar R$ 8 bilhões em investimentos.
Tarcísio de Freitas
Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras, com Engenharia Civil pelo Instituto Militar Engenharia (IME), o ministro de 43 anos é descrito como alguém bom de conversas de gabinete e em audiências públicas, mas também faz questão de meter o pé por estradas lamacentas e negociar preço de frete com caminhoneiros. Também ganhou pontos com o chefe ao adotar uma postura mais pragmática em relação a demandas de ambientalistas e de comunidades indígenas que eventualmente cruzam o caminho de projetos de infraestrutura.

TOCA OS PROJETOS – “Fazer algo objetivo, mesmo que seja de sua própria rotina, tem feito toda a diferença num governo tumultuado”, diz o professor Marco Antônio Teixeira, da FGV-SP. “É um ministério que faz o que se espera dele: toca os projetos.”

Diferentemente do que se vê em quase toda a equipe escolhida a dedo por Bolsonaro, Tarcísio é um egresso dos ex-presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer. Ele chegou à cúpula do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em 2011, quando Dilma prometia fazer uma “faxina” no órgão, depois da revelação de esquemas de corrupção. À época, era funcionário de carreira da Controladoria-Geral da União (CGU).

Tarcísio foi o número dois do general Jorge Fraxe, que ocupou o posto de diretor-geral do Dnit com a missão de resgatar a imagem do governo. Em 2014, ele sucederia Fraxe no comando do Dnit.

NO PLANALTO – No governo Temer, atuou na Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), no anexo 2 do Palácio do Planalto. Com sua nomeação para comandar toda a área de infraestrutura, Tarcísio passou a ser visto como mais um “superministro” do governo Bolsonaro, somando-se ao time de Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça).

Quando Bolsonaro, ainda em dezembro, pediu uma prévia do que receberia em sua mesa assim que chegasse ao Planalto, Tarcísio usou o trabalho anterior no governo para apresentar um pacote de concessões que estavam engavetados ou com contratos para assinar. “Esse resultado é fruto de trabalho, não nasceu do dia para a noite”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. “Ele vem atuando de maneira pragmática. Não era uma pessoa conhecida popularmente e está surpreendendo.”

Servidor de carreira vinculado à consultoria legislativa da Câmara, a indicação de seu nome para Bolsonaro não foi defendida apenas pelos amigos de caserna e generais que estiveram com ele no Haiti, quando chefiava a seção de engenharia da missão de paz da ONU. Tarcísio também seria elogiado por membros do Tribunal de Contas da União, que ele próprio gosta de criticar.

VISITA AO TCU – Em dezembro, Bolsonaro fez uma visita ao tribunal. Teve uma conversa com os ministros, entre eles, o decano da Corte, Walton Alencar Rodrigues. Na conversa, Walton sublinhou o trabalho de Tarcísio e de seu parceiro na condução das concessões do PPI, Adalberto Vasconcelos. Ambos vinham liderando os projetos e o cronograma dos leilões.

Bolsonaro ouviu com atenção e guardou os nomes. Pesou ainda o fato de Tarcísio ter currículo militar. Adalberto, por seu lado, já tinha atuado como auditor do TCU e tinha trânsito com os militares alçados para liderar a transição do governo. A aprovação de seu nome pelo setor privado foi decisiva.

Os elogios feitos até agora, porém, não garantem uma unanimidade. Na área ambiental, ele é visto como alguém impaciente e capaz de “tratorar” qualquer um que não concorde com suas propostas. Dentro do TCU, muitos técnicos veem uma pressão descrita como exacerbada do ministro para que o órgão libere seus projetos. No ano passado, traços dessa pressão ficaram bem evidentes.

BRIGA NO TCU – Tarcísio, então secretário do PPI, tentava liberar a concessão da Rodovia de Integração do Sul (RIS) – atacado por auditores, que enxergavam irregularidades no edital. Tarcísio, então, acusou a Corte de levantar suspeitas sem apresentar provas. “Os auditores do TCU não são os ‘papas’ do universo. Tem muito absurdo nesse relatório, faz insinuações e não apresenta evidências. Vamos rechaçar. Estamos seguros do que colocamos lá e vamos nisso até o fim”, atacou ele, na época. Ambos acabaram cedendo e os ponteiros se acertaram. A concessão da estrada aconteceu em novembro de 2018, com a assinatura do contrato marcada para este ano.

“É um ministro objetivo, que vai direto ao ponto e que tem uma agenda com começo, meio e fim”, diz o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Depois dos insistentes elogios a Tarcísio de Freitas aqui na TI, feitos em artigos de Willy Sandoval, a imprensa descobriu o ministro, que trabalha no estilo JK e costuma verificar os problemas “in loco”, como fez na época das chuvas que impedem o tráfego na Amazônia. Foi pessoalmente conferir, para dar a solução mais adequada. (C.N.)
André Borges e Breno Pires/ Estadão


TRIBUNA DA INTERNET | Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, é a maior revelação do governo Bolsonaro

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Questão Brasil - 09/04/2019