Bandeiras Difusas E Racha Entre Apoiadores Podem Esvaziar Manifestação Pró-Bolsonaro

Quando Jair Bolsonaro (PSL) divulgou, em grupos do Whatsapp, um texto reclamando de seu isolamento, grupos ligados ao universo bolsonarista começaram a se articular para defender a “governabilidade” do mandatário. Os alvos imediatos dos militantes foram o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional, que estariam impedindo o presidente de implementar seus projetos e deveriam sofrer intervenção. Uma manifestação pró-governo foi convocada, então, para o dia 26 de maio.
Jair Bolsonaro recuou e não comparecerá nas manifestações que pretendem defender a sua governabilidade  - Créditos: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A reação foi imediata, mas veio de onde não se poderia supor. O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), cabo eleitoral de Jair Bolsonaro (PSL), quando soube da manifestação e suas motivações, esbravejou no Twitter chamando a convocação dos atos de “antirrepublicanos”.

“A gente não vai defender de forma alguma [protestos contra Congresso e STF]. O problema não está na instituição, está em ações de pessoas que utilizam o poder da instituição para fins pessoais”, afirmou o parlamentar, que rechaçou a possibilidade do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo que lidera, participar dos atos que defenderão o presidente. Em entrevista à BBC, o político foi além e disse que “movimento liberal não compactua com o fechamento do Congresso e nem do STF.”

Outro movimento de direita que transita entre os parlamentares que integram a base de Bolsonaro, o Vem Pra Rua (VPR), também divulgou que não estará nas ruas para defender o governo.

De acordo com os ativistas dos dois movimentos, a convocação dos atos partiu do núcleo duro de Bolsonaro, mais especificamente de Olavo de Carvalho e do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente.

Desde então, a convocação dos atos provocou um racha na direita e gerou uma preocupação nos organizadores: o esvaziamento das manifestações. Pensando nisso, os movimentos envolvidos na convocação dos atos ampliaram as pautas, que agora pedem a aprovação da Reforma da Previdência, da Medida Provisória 870 – chamada de reforma administrativa – e do Pacote Anticrime do Ministério da Justiça.

Para Lincoln Secco, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), há motivos para acreditar que a manifestação tenha baixa adesão.

“É difícil que ele consiga mobilizar os seus apoiadores mais amplos que se manifestaram em 2018. Ao contrário de manifestações de direita anteriores, essa não tem o apoio explícito dos meios de comunicação de massa, especialmente da Rede Globo”, explicou o docente.

Governo pode ficar mais exposto

Apesar do esforço em abraçar outras pautas, o evento da manifestação em São Paulo, por exemplo, tem apenas 1,6 mil presenças confirmadas. Os organizadores são movimentos sem capilaridade política ou social, como Nas Ruas, Movimento Avança Brasil, Juntos pelo Brasil, Direita São Paulo, Patriotas Lobos Brasil e São Paulo Conservador.

A baixa adesão pode expor ainda mais um governo que já enfrenta dificuldades para aprovar medidas, além de baixos índices de popularidade com menos de um semestre de exercício do mandato. Por conta do perigo, setores ligado ao bolsonarismo e a base do governo racharam.

O PSL liberou seus filiados para que decidam se irão às manifestações, mas sem garantir o apoio institucional aos atos. O presidente da legenda, Luciano Bivar, chegou a criticar a movimentação.

“Nós fomos eleitos democraticamente, institucionalmente. Não há crise ética, não há crise moral, estão se resolvendo os problemas das reformas, então eu vejo sem sentido essa manifestação”, afirmou Bivar.

Já deputada federal Joice Hasselman (PSL-SP), líder do governo no Congresso, criticou as manifestações e a escolha da Câmara dos Deputados e do Senado como alvos.

“Temos um Congresso que está disposto a votar a matéria [Previdência], um grupo de líderes dispostos a seguir com as votações. O que tem que acontecer é uma boa conversa e todo mundo baixar a guarda. Chega de clima beligerante, não se consegue aliados atacando pessoas”, alertou a deputada.

Mais indignada com a proposta do ato estava a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP). A parlamentar chegou a ameaçar sair do partido: “Essas manifestações não tem racionalidade. Pelo amor de Deus, parem as convocações. Não tem sentido quem está com o poder convocar manifestações. Raciocinem. Eu só peço o básico, reflitam.”

Nenhum partido da base do governo aderiu às manifestações, provocando mais uma saia justa para Bolsonaro. A rara defesa veio do deputado Marco Feliciano (PODE-SP), que pediu aos apoiadores do presidente que saim às ruas, mas que moderem na defesa de suas bandeiras.

“O protesto não pode virar bagunça, não pode ter oito tentáculos, você não pode ficar pedindo um milhão de coisas, tem que ser objetivo”, afirmou o parlamentar, que aproveitou para pedir uma pauta a mais aos militantes, “que o Coaf permaneça nas mãos do [ministro] Sérgio Moro.”

Diante da possibilidade de que as manifestações piorem a relação do governo com o Congresso e da falta de apoio, Bolsonaro anunciou que não irá comparecer aos atos, que estão previstos para ocorrer em 60 municípios.

Secco explica o racha no colo da direita.

“Esses políticos jovens, de direita, que se estabeleceram no DEM, no PSDB e mesmo no PSL, aderiram perfeitamente ao liberalismo conservador tradicional. E as práticas confusas do bolsonarismo no governo – especialmente na área externa, na educação e na relação com o Congresso – atrapalham a efetivação da agenda liberal conservadora”, explica o historiador, lembrando que “não há uma divergência de fundo ou de essência, o que existe é uma divergência de método”.

Militares e Fiesp

Na última segunda-feira (20), o Clube Militar, entidade que reúne agentes do Exército, Marinha e Aeronáutica, da ativa ou reserva, convidou seus 60 mil sócios a saírem às ruas para apoiar “o governo federal na implementação das reformas necessárias à governabilidade. Participem em sua cidade.”

O contraditório foi dado pelo general Santos Cruz, da Secretaria de Governo, para quem “não é a melhor hora para manifestações”. A declaração foi dada à Mônica Bergamo da Folha de S. Paulo.

Em outubro de 2018, antes da eleição, Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) declarou apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à presidência. Agora, com o protesto em apoio ao presidente marcado para a avenida Paulista, a 100 metros da sede da entidade, a Fiesp decidiu não apoiar as manifestações.

Sobrou para o folclórico Luciano Hang, dono da Havan, representar o empresariado e convocar a população para os atos. O empresário tem utilizado suas redes sociais para chamar seus seguidores para que compareçam às manifestações e ofereceu uma das suas lojas para que sirva de concentração para quem for participar.

Caminhoneiros

Os caminhoneiros, que paralisaram o país em maio de 2018 e fizeram campanha para Bolsonaro nas eleições, também estão divididos. Lideranças forjadas nos grupos de Whatsapp convocaram a categoria para comparecer nas ruas e defender o governo.

Por outro lado, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logísticas (CNTTL), que representa aproximadamente 700 mil caminhoneiros, não irá aderir às manifestações.

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Questão Brasil - 09/04/2019