Reforma Da Previdência De Bolsonaro Abandona Trabalhadores Informais, Diz Economista

Texto do projeto prevê sistema de capitalização e idade mínima para aposentadoria de 65 anos para homens e mulheres 




A reforma da Previdência de Jair Bolsonaro ganhou contornos mais visíveis nesta semana. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da equipe econômica do governo de extrema direita retoma medidas da primeira proposta de Michel Temer (MDB), como equiparar a idade de aposentadoria entre homens e mulheres em 65 anos.



O texto da PEC foi divulgado nesta terça (5) pelo portal Estadão e pela agência Broadcast. O governo quer fixar o tempo de contribuição de 40 anos para quem quiser receber o valor integral do benefício. Mas a grande novidade do texto é a criação de um sistema de capitalização.



Neste sistema, o fundo da Previdência é extinto. As contribuições vão para uma conta individual e são aplicadas em investimentos. O valor é definido na contratação do plano, e o benefício que será recebido varia de acordo com a rentabilidade. 



Hoje, o modelo da Previdência se baseia no sistema de repartição: há contribuição de trabalhadores, das empresas e do Estado. Ou seja, um fundo financeiro que cresce quando o emprego cresce.



A economista Denise Gentil, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), teme os efeitos da proposta após a aprovação da reforma trabalhista. Segundo ela, se aprovada, a reforma de Bolsonaro aumentará a desigualdade no país.



“O custo social dessa mudança é o seguinte: só os trabalhadores que conseguirem poupar uma parte do seu salário poderão fazer uma reserva para sua fase de inatividade", alerta a economista. "Com os baixos salários que temos hoje no Brasil, pouquíssimos brasileiros poderão ter uma aposentadoria no futuro. E o Estado resolveu abandonar essa parcela da população porque, simplesmente, o regime de repartição acabou”, afirma.



Quatro em cada dez trabalhadores no país estão no mercado informal, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2017 e 2018, houve perda de 460 mil vagas com carteira assinada.



O texto do governo, por enquanto, tem apenas a previsão legal da capitalização, deixando a regulamentação para um projeto de lei. Porém, já determina que o modelo terá caráter obrigatório.



A economista pondera ainda que a PEC não vai resolver o problema do déficit público. “Pelo contrário, o sistema de capitalização vai reduzir as receitas e provocar um déficit no regime geral, de repartição, que vai continuar existindo porque já tem aposentados que pertencem a esse regime”, diz a economista.



O ex-ministro da Previdência Social e advogado Carlos Eduardo Gabas afirma que o modelo, inspirado na reforma da Previdência do Chile da década de 1980, será “um desastre” no país. 



O grande interessado na reforma, diz Gabas, é o sistema financeiro. “[A reforma] reduz a proteção ao trabalhador, a garantia de renda no futuro; e transfere recursos públicos para os bancos privados. Essa proposta não tem nenhum ganho para a sociedade. O único ator que ganha nessa proposta são os bancos”.



O ex-ministro da Previdência Social do Brasil lembra que, da forma que funciona hoje, a Previdência é uma política de distribuição de renda. “Precisamos discutir, de fato, qual é o problema do país. Não é a Previdência. A Previdência é parte da solução do problema. Um país que se diz civilizado não pode abrir mão de um sistema de proteção social. Não pode entregar para o capital especulativo a responsabilidade de proteger os trabalhadores.”





O governo de Bolsonaro prevê um período de transição entre os sistemas que chegaria a 19 anos.
Rute Pina

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Projeto elaborado por Paulo Guedes deve passar por leitura do presidente Jair Bolsonaro ainda esta semana  - Créditos: Sergio Lima | AFP

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Questão Brasil - 09/04/2019