Ódio mais forte que a razão: Gustavo Bebianno pode ser o Pedro Collor de Bolsonaro. Será?

Há diferenças continentais entre um caso e outro separados por um hiato de 27 anos. Joaquim de Carvalho é o autor do texto que segue abaixo e o leitor pode fazer um comparativo entre as duas situações.
É sempre bom lembrar que o solavanco provocado por Carlos Bolsonaro tem um quê de proposital, parece que a real intenção era tirar o foco de outro assunto que nem de longe passa pelo laranjal do PSL.

Texto de Joaquim de Carvalho:

O episódio que levou à fritura e a anunciada demissão de Gustavo Bebianno faz lembrar a briga que levou ao impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992.
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Fernando Collor tinha um irmão, Pedro, que fez as primeiras denúncias que levaram à abertura de uma CPI para investigar as traficâncias de Paulo César Farias, tesoureiro e amigo do então presidente.
Pedro sabia muito, e o que o levou a detonar um irmão nunca ficou claro. Há algumas hipóteses:
Um jornal que PC Farias montou em Alagoas para concorrer com o veículo da família Collor.
O ciúme de Pedro Collor, incomodado com as insinuações de que sua mulher, Tereza, teria sido seduzida pelo irmão.
A tentativa frustrada de tentar concorrer com PC Farias nas traficâncias do poder.
Pedro, ao contrário de Gustavo Bebianno, não ocupava ministério, mas foi colocado para bem longe do governo quando tentou ser a eminência parda, concorrendo com o tesoureiro de Collor.
Nesse ponto, remete a Carlos Bolsonaro, que não tem funções no governo, mas quer estar sempre presente.
Alijado do centro do poder, Pedro Collor começou a dizer que detonaria o concorrente, PC Farias, e em off vazava os podres do tesoureiro do irmão.
A revista Veja, onde eu trabalhava na época, colocou um repórter para ficar na cola de Pedro, para convencê-lo a falar.
E um dia ele falou, e falou muito, e apareceu na capa da revista — “Pedro Collor conta tudo” —, em que dava detalhes da sociedade informal entre Fernando Collor e PC Farias.
Nesse ponto, remete a Gustavo Bebianno, que não é irmão de Bolsonaro, mas foi durante muito tempo um amigo próximo, talvez mais próximo do que um irmão.
Na época, o ódio de Pedro Collor era muito mais forte que a razão, e não houve quem conseguisse impedi-lo de falar.
E não faltaram tentativas.
O empresário João Carlos Di Genio, dono do Objetivo, muito rico, abrigou Pedro Collor em uma suíte de sua propriedade no Maksoud Plaza, o melhor hotel de São Paulo na época, e muita gente foi conversar com ele, todos alertando para o estrago que a entrevista provocaria.
Fernando Henrique Cardoso, na época senador, telefonou para a revista tentando evitar a publicação da entrevista.
Entre outras coisas, disse que as instituições brasileiras não estavam preparadas para a revelação de que o país tinha um presidente corrupto.
“Os militares podem voltar”, chegou a dizer.
O ministro Jorge Bornhausen, um dos principais auxiliares de Collor, foi até a editora Abril para saber o que seria publicado.
Travou-se o seguinte diálogo, que o jornalista Mário Sérgio Conti reproduz em seu “Notícias do Planalto”.
Bornhausen quis saber se havia fatos graves relatados por Pedro Collor.
— De que tipo, ministro? — perguntou Mário.
— Por exemplo, tem corrupção?
— Tem.
— Tem drogas? — prosseguiu Bornhausen.
— Tem.
— Tem sedução?
— Tem.
— Tem rabo?
— Como ministro?
— É, tem rabo, homossexualismo?
— Não, não tem.
Num raro momento em que pareceu se arrepender, Pedro assinou procuração para um advogado que tentou uma medida cautelar para impedir a publicação dessa entrevista bombástica.
Já era tarde.
A edição saiu e aquela foi uma das mais vendidas da história da revista. Alguns dias depois, Pedro Collor oscilou entre as iniciativas de ataque ao irmão e o recuo.
Parecia querer emparedar Fernando Collor, mas não derrubá-lo. Era contraditório.
Mas, uma vez que acendeu o pavio, não conseguiu impedir que o barril de pólvora explodisse, e a explosão veio através da reportagem da revista IstoÉ que apresentou cópias de documentos bancários que ligavam Collor a PC.
Vinte e sete anos depois, Bebianno está sendo afastado por motivos que ainda não ficaram muito claros.
De uma coisa, pode-se ter certeza: não tem nada a ver com o esquema de laranjas do PSL.
Se fosse esse o motivo, outro ministro, o do Turismo, teria sido fritado há mais tempo, já que os indícios de envolvimento de Marcelo Álvaro Antônio com o desvio de dinheiro público do Fundo Partidário são muito mais fortes, e anteriores.
Caso decida ser o Pedro Collor da vez, Bebianno não terá dificuldade de conseguir veículos que lhe dêem espaço.
Sua proximidade com a TV Globo é notória, e esse teria sido um motivo (nesse caso, plausível) para o distanciamento de Bolsonaro.
Bebianno marcou uma reunião com o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo, Paulo Tonet Camargo, no Palácio do Planalto.
“Como você coloca nossos inimigos dentro de casa?”, disse Bolsonaro, em mensagem transmitida por áudio ao ministro.
Tonet Camargo ocupa um cargo com nome pomposo, mas o que ele faz é lobby, na cúpula dos três poderes.
Um antecessor dele, Evandro Guimarães, era chamado de senador, por interferir nas votações do Congresso, acelerando projetos e vetando nomeações, como a de um deputado evangélico que seria presidente da Comissão de Comunicações, ainda durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Com receio do crescimento da Record, a Globo não queria evangélico nessa comissão que decidia (e decide) sobre concessões e renovações de concessões na área de rádio e TV.
Como Globo se tornou inimiga e a Record, mais que a amiga, o áudio de agora é o tipo de mensagem que Bolsonaro não gostaria que se tornasse pública.
Mas se tornou, através de publicação de uma nota na coluna Radar, da Veja.
E está mais do que na cara de que quem vazou foi Bebianno, já que não faz nenhum sentido que a iniciativa fosse de Bolsonaro.
Pelo visto, foi só um aperitivo.
E mostra que, a essa altura, o já quase ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência não está se importando muito para permanecer no cargo.
Se tivesse, não teria vazado o áudio.
Parece o início de uma guerra.
Haverá forças de lado a lado tentando conter ou soltar Bebianno.
Quem conhece os bastidores de Brasília poderia apostar que o ex-amigo de Bolsonaro não ficará quieto.
Na sua campanha eleitoral, Bolsonaro usou e abusou de um versículo bíblico — “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
Se ele conhecesse mais a fundo a Bíblia, saberia que há um provérbio que desaconselha briga com amigos ou irmãos muito próximos.
“O irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte; e as contendas são como os ferrolhos de um palácio”, diz o provérbio.
Foi assim com Pedro.
Poderá ser assim com Gustavo.

Ódio mais forte que a razão: Gustavo Bebianno pode ser o Pedro Collor de Bolsonaro. Será?

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Questão Brasil - 09/04/2019