Justificando: quando o governo aponta a arma para a imprensa quem leva o tiro é a democracia

Editorial do portal Justificando*
A exposição dos áudios divulgados pela Veja entre o presidente da república, Jair Boslonaro e o ex-secretário geral da presidência, Gustavo Bebianno, demonstrou fraturas expostas no relacionamento dentro do governo. O vazamento explicitou ainda mais o comportamento belicoso do Planalto para com a imprensa, em especial a Rede Globo.

Desde a campanha presidencial já se previa um comportamento hostil com a mídia, portanto não se pode falar em novidade, visto que em diversas outras oportunidades, ainda na qualidade de Deputado Federal, o presidente já colecionava agressões a jornalistas.

O Justificando, durante as eleições, apontou por diversas vezes o autoritarismo do então candidato e conjuntamente com diversas outras mídias progressistas formou um coro uníssono de alerta para os riscos contra liberdade de expressão e à democracia caso Bolsonaro viesse a ganhar.

O primeiro ato simbólico de transição de governo foi a posse e, logo na primeira cerimônia, jornalistas foram maltratados, com acessos impedidos, controle de transportes, esquemas de segurança e logística. No dia, profissionais da imprensa comentavam indignados que aquilo parecia uma espécie de cárcere privado preparado pelo governo.

Os repórteres credenciados para a solenidade tiveram que pegar ônibus às 7 da manhã e puderam sair somente às 17 horas. Sem poder levar garrafas, e sem disponibilidade de alimentos, tiveram que levar suas próprias comidas e provar para os seguranças, na entrada, que elas não estavam envenenadas. Foram colocados no sol, sem sombra alguma, aprisionados em vans com liberdade de acesso restrita, em condição de total dificultação do trabalho jornalístico. Enquanto isto, o público pôde entrar normalmente às 10 da manhã e diversos blogueiros afinados com o discurso do governo conseguiram acesso privilegiado, em claro sinal de distinção entre aliados e inimigos, “propagandistas” e imprensa.

Bolsonaro, hoje, “ainda em campanha”, precisa de alguém para hostilizar. Utiliza-se da premissa militar ao taxar como inimigos aqueles que com ele possuem divergências políticas. Fato este que se mostra, inclusive, na perseguição da ABIN contra religiosos católicos que organizam eventos voltados à direitos humanos e meio ambiente na Amazônia; ou na tentativa fracassada de limitar o acesso às informações do governo, facilitando a classificação de documentos como ultrassecretos. Percebemos também a hostilidade com a imprensa e a diminuição da transparência na primeira coletiva presidencial que forçosamente impediu a Folha de participar sob a desculpa de que “não caberia mais um jornalista no local”. Estas estratégias são semelhante as praticadas por Donald Trump no seu primeiro ano de governo, o que mostra que Bolsonaro tem uma cartilha trumpista a seguir, mas com uma dose maior de militarismo.

Lembramos que o Código de Ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ) é bem objetivo nos seus preceitos quanto ao compromisso das empresas jornalísticas na defesa da democracia. Diz seu texto que é dever dessas empresas  manter sua independência, apurar e publicar a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses. Diz ainda que é seu dever defender os direitos do ser humano, os valores da democracia representativa bem como assegurar o acesso de seus eleitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade.

O peso da instituição Imprensa na construção ou desconstrução de uma democracia advém de seu poder de mídia, sua capacidade de comunicação e de sua habilidade de produzir um tipo de conhecimento, que alimenta uma robusta circulação social da informação, fenômeno único na história da humanidade. Em jogo permanente, a disputa da hegemonia das ideias na sociedade.

Justificando: quando o governo aponta a arma para a imprensa quem leva o tiro é a democracia

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